Pensamentos Póstumos

Não sei se todos são assim, mas eu tenho um pensamento mórbido recorrente.
Acho que nunca falei isso com ninguém, ou pelo menos, não me lembro nunca de ter tido esse tipo de conversa.
Afinal, mórbido, né? As pessoas não costumam gostar muito disso.

Bom, tenho esse a um tempo já, desde moleque, imagino.
As vezes penso, faço quase que um exercício mental, penso no que aconteceria se eu passasse desta para melhor, assim, do nada. Pumba! Vapt! Escafedeu-se este que vos escreve.

Costumava pensar em quem iria para meu velório, em quem iria ficar sabendo anos depois, quem saberia só no mês seguinte e quem estaria lá, ligando para parentes e amigos avisando da má notícia. (numa prepotência também mórbida, julgando que o aviso de meu falecimento, seja mesmo uma má notícia).

Mas na real, nunca tive lá muito medo da morte. Imagino que sempre que quando for a hora, não me adianta tentar evitá-la, pois ela chegará onde quer que eu esteja.
Acho por vezes divertido esse pensamento mórbido, é quase como um balanço geral das minhas relações sociais. E por isso que é recorrente, por que tais relações sempre mudam de tempos em tempos.
Na morte tudo aparece, né? De dívida não paga a filho não reconhecido.
Aparecer uns amigos a mais ou de menos, acho que é normal.

Em tempos de redes sociais, fico imaginando quantos convites para Máfia Wars vou receber, ou quantos “cutucões” no Facebook levarei sem poder revidá-los.
Cutuquem muito não, pois volto para puxar o pé de vocês. O virtual e o real…

Lembro de um serviço, (será que encontro o site?) que prometia apagar todos os rastros de sua vida virtual e até enviar alguns e-mails póstumos a quem desejar.
O funcionamento era simples, de tempos em tempos você recebe um e-mail, e tem que respondê-lo. Quando não o fizer, Pimba. Quer dizer que ta morto, e lá se vai seu perfil do My Space e 3 semanas depois um Forward do seu pai que recebeu um e-mail bonitinho seu e achou que era pra repassar.
Bom, é melhor ter certeza de seu acesso constante à internet antes de contactar este serviço. “Melhor evitar a fadiga”.

Voltando ao pensamento mórbido original, às vezes penso também se deveria ter meus “últimos desejos”.
Fico com preguiça, é a verdade. Tenho lá minhas dúvidas se minha família iria realmente ceder e atender pelo menos as vontades do recém falecido.

Romanticamente, não queria um velório triste.
Não queria ninguém abraçado ao meu corpo maquiado chorando mágoas de sinceridade duvidosa.

Queria música, queria amigos distantes. Aqueles que a internet tem ajudado a trazer pra perto, mas que todos sabemos não ser a mesma coisa.
Queria aquele professor que apostou tanto em mim, que tinha certeza que eu iria longe na vida.
Queria, na verdade, poder ver todos aqueles círculos sociais estranhos se encontrando. Num pensamento quase coletivo, “com quem diabos este Léo estava andando?”
Queria que minha última ação neste plano, mesmo que não mais em vida, fosse fazer algumas pessoas se encontrarem, e quem sabe, se identificarem umas com as outras. Encontrar o elo de união que faz a conexão entre todos nós.
Lá, bebendo, curtindo, contando bobagens sobre minhas escassas peripécias em vida, trocariam algumas boas experiências e teriam a chance de se aproximar do que realmente importa, as pessoas.

Sobre o destino final do meu receptáculo de carne, sempre soube que a doação de órgãos era uma certeza. Se alguém poder usar algo deste corpitcho, que seja de bom uso. Bom, menos a vesícula, essa fico devendo. 😉
Depois disso, não sei. Não sei se quero ter um lugar para que minha mãe volte para rezar no dia de Finados. Não é uma imagem que gostaria de ver, mesmo que do Além, ou sei lá pra onde for.
A cremação costuma me fascinar. É tentador a qualquer um que seja um pouquinho só piromaníaco terminar, enfim, no fogo.
As cinzas? Nunca guardadas. Arremessadas ao mar, à montanha. Ou até solta para se misturar com a poluição natural da minha cidade natal. Tai, acho que seria uma boa.
Da poluição ao pó.

Confesso que tive uma pitada de inveja do texto de despedida da menina que faleceu em Janeiro, naquela catástrofe em Angra dos Reis.

Horrível, claro. Mas o texto foi uma das coisas mais lindas que já vi e que sequer tenho coragem de reproduzir no meio destas linhas tortas afim de não ofender a alma da coitada ou dar aos meus três leitores, parâmetros de comparação.
Prefiro que fiquem com este aqui, toscão mesmo.

Bom, deste texto você pode ter certeza de duas coisas, viver é muito bom. E volto pra puxar o pé do primeiro falso que aparecer no meu velório com lágrimas de crocodilo. (sempre quis usar essa expressão) o/

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2 Respostas to “Pensamentos Póstumos”

  1. A parte de que mais ri foi sobre as redes sociais,e sobre os seus amigos se entreolharem e se estranherem no velório pensando,”nossa com quem ele estava andando?” você realmente tem uma imaginação enooooorme leo!

  2. Adorei! Mas, sinto informar: agora, vc não tem só 3 leitores! rsrr… Mais responsa, né?! Bjs

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